terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Gaiolas e Asas

Não sei se vou postar mais alguma coisa antes do findar deste ano, mas quero deixar ao menos esse maravilhoso texto usurpado com força e pressão do site Casa de Rubem Alves.

Os pensamentos me chegam de forma inesperada, sob a forma de aforismos. Fico feliz porque sei que Lichtenberg, William Blake e Nietzsche frequentemente eram também atacados por eles. Digo “atacados“ porque eles surgem repentinamente, sem preparo, com a força de um raio. Aforismos são visões: fazem ver, sem explicar. Pois ontem, de repente, esse aforismo me atacou: “Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas“
Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo.
Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.
Esse simples aforismo nasceu de um sofrimento: sofri conversando com professoras de segundo grau, em escolas de periferia. O que elas contam são relatos de horror e medo. Balbúrdia, gritaria, desrespeito, ofensas, ameaças... E elas, timidamente, pedindo silêncio, tentando fazer as coisas que a burocracia determina que sejam feitas, dar o programa, fazer avaliações... Ouvindo os seus relatos vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados, garras à mostra - e a domadoras com seus chicotes, fazendo ameaças fracas demais para a força dos tigres... Sentir alegria ao sair da casa para ir para escola? Ter prazer em ensinar? Amar os alunos? O seu sonho é livrar-se de tudo aquilo. Mas não podem. A porta de ferro que fecha os tigres é a mesma porta que as fecha junto com os tigres.
Nos tempos da minha infância eu tinha um prazer cruel: pegar passarinhos. Fazia minhas próprias arapucas, punha fubá dentro e ficava escondido, esperando... O pobre passarinho vinha, atraído pelo fubá. Ia comendo, entrava na arapuca, pisava no poleiro – e era uma vez um passarinho voante. Cuidadosamente eu enfiava a mão na arapuca, pegava o passarinho e o colocava dentro de uma gaiola. O pássaro se lançava furiosamente contra os arames, batia as asas, crispava as garras, enfiava o bico entre nos vãos, na inútil tentativa de ganhar de novo o espaço, ficava ensanguetado... Sempre me lembro com tristeza da minha crueldade infantil.
Violento, o pássaro que luta contra os arames da gaiola? Ou violenta será a imóvel gaiola que o prende? Violentos, os adolescentes de periferia? Ou serão as escolas que são violentas? As escolas serão gaiolas?
Me falarão sobre a necessidade das escolas dizendo que os adolescentes de periferia precisam ser educados para melhorarem de vida. De acordo. É preciso que os adolescentes, é preciso que todos tenham uma boa educação. Uma boa educação abre os caminhos de uma vida melhor.
Mas, eu pergunto: Nossas escolas estão dando uma boa educação? O que é uma boa educação?
O que os burocratas pressupõe sem pensar é que os alunos ganham uma boa educação se aprendem os conteúdos dos programas oficiais. E para se testar a qualidade da educação se criam mecanismos, provas, avaliações, acrescidos dos novos exames elaborados pelo Ministério da Educação.
Mas será mesmo? Será que a aprendizagem dos programas oficiais se identifica com o ideal de uma boa educação? Você sabe o que é “dígrafo“? E os usos da partícula “se“? E o nome das enzimas que entram na digestão? E o sujeito da frase “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante“? Qual a utilidade da palavra “mesóclise“? Pobres professoras, também engaioladas... São obrigadas a ensinar o que os programas mandam, sabendo que é inútil. Isso é hábito velho das escolas. Bruno Bettelheim relata sua experiência com as escolas: “fui forçado (!) a estudar o que os professores haviam decidido que eu deveria aprender – e aprender à sua maneira...“
O sujeito da educação é o corpo porque é nele que está a vida. É o corpo que quer aprender para poder viver. É ele que dá as ordens. A inteligência é um instrumento do corpo cuja função é ajudá-lo a viver. Nietzsche dizia que ela, a inteligência, era “ferramenta“ e “brinquedo“ do corpo. Nisso se resume o programa educacional do corpo: aprender “ferramentas“, aprender “brinquedos“. “Ferramentas“ são conhecimentos que nos permitem resolver os problemas vitais do dia a dia. “Brinquedos“ são todas aquelas coisas que, não tendo nenhuma utilidade como ferramentas, dão prazer e alegria à alma. No momento em que escrevo estou ouvindo o coral da 9ª sinfonia. Não é ferramenta. Não serve para nada. Mas enche a minha alma de felicidade. Nessas duas palavras, ferramentas e brinquedos, está o resumo educação.
Ferramentas e brinquedos não são gaiolas. São asas. Ferramentas me permitem voar pelos caminhos do mundo. Brinquedos me permitem voar pelos caminhos da alma. Quem está aprendendo ferramentas e brinquedos está aprendendo liberdade, não fica violento. Fica alegre, vendo as asas crescer... Assim todo professor, ao ensinar, teria que perguntar: “Isso que vou ensinar, é ferramenta? É brinquedo?“ Se não for é melhor deixar de lado.
As estatísticas oficiais anunciam o aumento das escolas e o aumento dos alunos matriculados. Esses dados não me dizem nada. Não me dizem se são gaiolas ou asas. Mas eu sei que há professores que amam o vôo dos seus alunos. Há esperança...
(Folha de S. Paulo, Tendências e debates, 05/12/2001.)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Em tempo


“Viver nos Estados Unidos é bom, mas é uma merda. Viver no Brasil é uma merda, mas é bom.”
(Maestro Antônio Carlos Jobim)


terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Seu Manj

Esse é um papo para ser desfrutado com uma boa iguaria nordestina, ou pseudo nipônica, ou um espetinho da esquina. Tudo porque um bom bate-papo com Marcelo Alexandre Nunes (Manj) inicia-se e ou se conclui com uma apetitosa refeição.
Dono de uma personalidade singular, este cara consegue imprimir o mesmo bom humor que rega seus dias nos seus trabalhos criativos.
Vou postar algumas das obras desse meu amigo aqui, elas dispensam comentário, mas eu não consigo ficar sem dar pitaco em nada, então se quiserem leiam, vejam, leiam e vejam denovo.


Baratas, Porcos, lutadores mascarados, animais em corpo humano, tem de tudo no arsenal artístico desse pernambucano de nascimento, mas paraibano de criação, que agora estuda Ilustração e Design em Barcelona. Como todo grande artista, busca influência em nomes consagrados da ilustração mundial como Crumb, Manara, Eisner, porém imprime em seus trabalhos uma assinatura impar que envolve o que eu chamo de "Sujeira Limpa" no desenho e releitura do comum.





O gato da Zinebra: Um trabalho recente, feito à lápis e colorido com canetas Stabilo. Desenhos e esculturas de gatos são especialidades do gordinho.
































Um morto Mariachi e um auto retrato (porco sacana), traços firmes, bem arrojados e com improváveis misturas que no fim de tudo, não é que dão certo!
Os desenhos aqui postados foram tirados de um de seus Sketchbooks, presente do poiquin para minha pessoa.
De onde vieram esses tem muito mais, mas espera um pouco! Você deve estar querendo ver mais trabalhos dele não é?
Aonde encontrar mais da arte dele?

Em breve seu portfólio online vai estar no ar, com desenhos bem sacados que levam o timbre deste competente ilustrador brasileiro.

E eu prometo postar aqui um papel de parede bacana com uma de suas ilustrações.

Hasta la vista!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Estréia

Todo mundo tem sacadas espirituosas, algumas vezes parecem até piada, seu Lunga, ilustre cidadão residente em Juazeiro do Norte (Ceará), ficou conhecido por suas respostas ácidas, tantas que algumas outras brutalidades verbais foram atribuídas a ele.
Na série de tirinhas intitulada "Discípulos de Lunga" serão apresentads alguns diálogos com carga lógica de brutalidade bem humorada.
espero que gostem.




terça-feira, 8 de dezembro de 2009

. Polis + Ética

Estou retornando ao ambiente ransoso e ensaboado da política do nosso país, quem me conhece bem sabe das reservas que tenho com relação ao modo de se fazer política no Brasil. E o mais esquisito é que ultimamente tenho filosofado bastante acerca das implicações práticas da política, reimpulsionado pelas arguições de um Riponga chato (redundância né) que entrou aqui na loja a uns dois meses.
O mané tava chateando meu amigo David sobre a etmologia das palavras, na hora em que cheguei perguntava se o gajo sabia de onde vinha a palavra politica, bom eu já tinha estudado isso na antiga quinta série do ginásio, polis vem do grego cidade, e ética é o modo de proceder sem que os direitos de outrem sejam feridos (a culpa da minha parca definição não é do ginásio e sim da minha mente mau definidora, perdão amigo), portanto concluí que Poli+ética é o conjunto de boas práticas para se viver bem na cidade, em suma, todos os que vivemos nas cidades são em essência Polis-éticos ou políticos.
O bacana de se aventurar no entendimento das palavras, é que de fato compreendemos o que elas querem dizer, ou queriam no passado e qual conotação assumem atualmente. Explico! etmologicamente Política, segundo minhas próprias conclusões já explicitadas, só pode ser exercida nas cidades, então se você mora na zona rural, em uma fazenda, sítio, vilarejos, assentamento etc, você não mora em uma cidade, por tanto não exerce polis-ética e sim, o que eu acabei de inventar, ruralis-ética.
Na idade média, tal qual hoje, os habitantes das cidades (cidadãos) aprendiam desde cedo a nutrir um certo preconceito para com os habitantes das não-cidades, das fazendas e vilas, daí o termo "vilão", hoje associado a sujeito ruim.

Indo pro que interessa!

Eu vi esta semana, algo que me deixou preocupado, fui na livraria e percebi de uma vez por todas que o campo editorial está indo rumo à lama. Ao lado dos livros de Vampiros EMO que engrossam o caldo das porcarias escritas pra adolescentes gays e semigays, vi o livro que foi lançado juntamente com o filme, que conta a vida épica de um filho de retirantes oriundos do interior pernambucano e que se tornou Presidente do Brasil. Me interessei e fui dar uma bizoiada no trailler do filme, o que eu vi foi uma tentativa de tornar seu Ináfio em um Semideus brasileiro, manso, sereno, militante de uma causa legítima, inabalável a despeito dos problemas, ora Lulinha sempre foi superior a tudo, inclusive às surras da polícia, o bacana é que não se fala nada de sua aversão ao trabalho, tendo em vista que ele não sabe o que é bater um prego em uma barra de sabão desde os idos de 1978, quando iniciou a arquitetação do, ironicamente, Partido dos Trabalhadores.
Este quixote bem sucedido tem seguidores no país inteiro, como um jumento carregado de açúcar vem magneticamente atraindo o os politicos de diversas legendas, aqui na paraíba não foi diferente. e quer fazer um teste, pergunte a qualquer um que você conheça quais suas impressões sobre Lula, engraçado é que as respostas serão bem parecidas, algo do tipo: "não é bom, mas de todos foi o melhor, ou você preferia Sarney ou Collor?" puro caso de Reductio ad Absurdum.
Eu só sei que ser apresentado ao filme "Lula, o filho do Brasil" me deixou com várias interrogações:
  1. Será que ele vai conseguir imprimir em Dilma uma mascara barbura e apedeuta pra poder garantir as eleições do ano que vem?
  2. Nós os outros, seremos novamente engodados pela mistica do sujeito pobre que conseguiu vencer na vida?
  3. Terá o cinema força suficiente para deixar a imagem de Lula uma vez por todas vinculada a uma espécie de Messias?
Sei não, histórias de vida costumam ser muito eloquentes, mais ainda quando o cinema resolve entrar no jogo.

O fato é que para mim seu Inácio é um sujeito ao pé da letra em todos os sentidos, um homem que nasceu em um vilarejo do interior do Nordeste, que tornou-se cidadão da maior megalópole nacional, conseguiu liderar um forte movimento por uma esquerda utópica, conseguiu adesão de cabeças pensantes, e em determinado momento as cabeças pensantes foram decisivas pra moldar o Lula que conhecemos, que não sabe o que acontece a sua volta, que não precisa entender nada de política internacional, apenas precisa manter-se firme com uma retórica simplificada tanto para os grandes empresários, quanto para o mais simples representante do povo, vê-se, ao pé da letra que Lula não nega sua orígem vilã.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Dalhe, Dalhe Ô!


A euforia ainda não passou, talvez nem passe tão cedo, afinal 17 anos não são 17 dias, e um reencontro demorado assim tem que ser curtido até as ultimas, na verdade, o 6º título brasileiro conquistado ontem pelo Flamengo tem que ser comemorado por muito tempo, servindo até de ceia natalina.

Exageros a parte, êpa, corrigindo em tempo, não dá pra falar do flamengo sem exageros, não dá para pedir para o time que tem a maior torcida do mundo não ser exagerado. Músicas, engarrafamentos, gritos de gol, um país inteiro acotovelando-se nos barzinhos, nas casas, nos supermercados, enfim em qualquer lugar que tivesse uma TV para ver "COMEÇAR A FESTA" e para festejar também, mobilização inigualável, em números oficiais ontem o Maracanã atingiu o maior público do Brasileirão algo em torno de oitenta e tantos mil pagantes, só que o Maraca tinha, na verdade o tamanho do Brasil, Flamenguistas e Antiflamenguistas (não existe meio termo nesta conta) estavam assistindo apreensivos ao jogo.
Quando o Grêmio fez o primeiro gol, o coração de todos os flamenguistas do mundo ficou do tamanho de uma azeitona. Mas tinha que ser dos pés de dois jogadores lá do fundão, no democrático flamengo, nem sempre os atacantes são os que fazem os gols, David número 40, fez o primeiro depois da proteção feita pelo Imperador, e o segundo merece um parágrafo só pra si.
Andrade iria realizar a substituição colocaria Fierro no lugar de Petkovic, a placa de substituição sobe, mas o jogo está tenso e sobra um escanteio para o flamengo, sobra um escanteio para Pet cobrar, caro leitor, você não foi o único a pensar "vai Pet esse é o seu, faz olímpico", Pet de fato cobra, cruza no meio da pequena área e encontra ele, número 4, zagueiro de ofício, Ronaldo Angelim, apreensão, Angelim olha para o gol, fundamento do futebol, cabeceada, olha para onde o goleiro não está, e a bola como um presente açucarado vem parar no coração de uma torcida imensa, antagônicamente à rede que estufa serena, o Brasil inteiro explode de emoção, é HEXA, é HEXA, Mengão do meu coração.

Após este, afinal, em que tivemos direito a esta alegria, explosiva, e fugaz, esta ofegante epidemia, que se chama Flamengo Hexa Campeão, João Pessoa se concentrou na quadra de Manaíra, parando a rua, e quem ligava? tudo eh festa, o flamengo é HEXA!

gracias