sexta-feira, 29 de maio de 2009

Tiradas

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segunda-feira, 4 de maio de 2009

Quero ficar velho

A morte é a maior certeza que nós temos quando da inocência inconsciente do nascimento, tantos são os que nascem e em poucos dias morrem ou deixam a vida em idades tenras, sem muitas experiências, apenas deixando expectativas, lamentos do quão genial poderia ter sido a trajetória do dono da infeliz sorte de ser privado da vida logo cedo. Quem dera pudesse ter a certeza de que chegarei a ser idoso, poderia elaborar planos para aproveitar todas as fases da vida, para por fim descansar em minha velhice.
Quero poder me reunir com velhos amigos e falarmos de nossas diversões de criança. De quando ganhei meu atari, de como ele ficou obsoleto e então o fliperama da esquina era a opção mais maneira. Das saídas de bicicleta nos dias de chuva, como a lama parecia uma companheira constante de nossas roupas e almas. Dos joelhos no chão nas partidas acirradas de bola de gude e tampinha cross. Das brigas antes durante e depois das peladas.

Quero conversar com os amigos que ainda estiverem vivos sobre os que já se foram, sobre como as coisas estarão mudadas, e como eu acharei até o atual tempo de crise melhor do que os tempos futuros. Quero que meus netos parem um pouco pra ouvir aqueles "coroas comédia" conversarem, explicar para eles um montão de coisas sobre minha geração. Quero falar sobre a elegância que tinham as pessoas em minha época, como as meninas tinham seus comportados piercings, os caras prezavam por seus moicanos, ou por seus drads maneiros, falar de como as roupas já vinham sujas e rasgadas de fábrica, tudo produzido para manter a etiqueta de minha geração. Lembrar de como a música veículada pela mídia em meus dias teve um declínio tão lamentável, e que era preciso ir a lugares certos, conhecer os caras certos para se ouvir música de verdade, mas me regozijar que algum carinha sobrinho tataraneto de Jobim ou Gonzagão ou Chico (Buarque ou Cézar) ou filho de ninguém que esteja fazendo um sonzão digno de se chamar MPB novamente.

Quero me lembrar de como estudar era diferente no meu tempo, do quadro de giz e do professor mais carrasco que eu tive, lembrar das colas, das provas, das matadas de aula por algum motivo nobre, como namoro, futebol ou violão. Lembrar do dia da minha formatura, e entre uma ida ao banheiro e outra, gargalhar lembrando de alguma sacanagem criada por mim e meus amigos para tirar sarro de algum professor ou colega.

Lembrar de como a internet começou e trouxe uma enxurrada de possibilidade, até mesmo de relacionamentos à distância. Falar de como era difícil na minha adolescência ter um celular, e ter que explicar o que era um celular e falar que depois de alguns anos você ganhava um se comprasse um chiclete.

Quero ser velho para falar dos amores da juventude e me rir das melosas poesias que escrevia pras namoradinhas de então, de como eu tinha prazer em sorrir e estar mergulhado nos olhos de uma linda menina, e como estas meninas mudavam como as estações do ano e como este prazer fomentaria uma busca constante através da minha vida, e entre gargalhar e tossir lembrar que quando deixei de ser um jovem medroso, e de como os relacionamentos tornaram-se mais exigentes e filosóficos, mais cheios de dúvida e receio, e lamentar sobre como eu era bobo em não ter aproveitado as chances que o amor me endereçou à porta.

Gostaria de ouvir, talvez pela nonagéssima nona vez, as aventuras amorosas de meus comparsas de dominó, damas e video game, contar também as minhas e por que não? E aumentar um pouco aqui e ali. Lembrar da primeira vez com uma mulher, e lembrar que algumas relações foram tão iguais que pareciam feitas no mesmo molde, já outras traziam inéditos estimulos que trancendiam os sentidos. Entre uma peça de dominó e outra escutar meus amigos falarem sobre seus amores, se por um acaso algumas paixões de juventude coincidirem, apenas seria mais um motivo para gargalhar, não haveria mais espaço para rixas, elas teriam se dissolvido nas águas do monjolo da vida.
Quem sabe algum afirmaria com olhos cintilantes que não houvera se casado com o amor de sua vida por capricho do destino, outro recordaria de sua linda companheira que falecera anos antes, e contando meia história é impedido por um nó na garganta. Já eu, caso minha companheira ainda viva esteja, gostaria de falar como é preciosa para mim a mulher, agora tão diminuída pelo tempo, que me proporcionou a plenitude do ser, sendo um só ser comigo.

Mas caso a viuvez seja minha sorte, quero lembrar com olhos fulgazes, misturando lágrimas e sorrisos, tentando lembrar frases, poemas, cheiros e cores que me remetessem à tardes mais ensolaradas, noites mais dançantes e dias mais festivos ao lado de minha doce Dulcinéia del Toboso.

Gostarei de me despedir dos meus amigos de cabelos cor de prata, nos rindo da sinfonia de "ais" "uis" só ouvida quando velhos homens se levantam ou se sentam. Gostarei de abraçar a todos e com um "até logo" voltar para casa e encerrar um ciclo diário que apenas teria termo quando então a morte, silenciosa de preferência, me viesse visitar.

Pois é, da velhice até a morte eu quero, não uma morte entubada cercada de dor que se alastra como o repicado som de uma funebre UTI de hospital. Preferirei, mil vezes, silenciosamente e com um sorriso nos lábios, não conseguir mais ser acordado pelo embate matutino dos cibitos e colibris no bebedouro para pássaros de minha sacada.

E quando transformado for, pois creio que no porvir as coisas assim serão, quero voltar à aparência renovada de minha idade mais próspera, mas não quero perder o espírito e a serenidade que só o envelhecer um dia me proporcionaram.


Texto Produzido depois de ter visto o Filme de Domingos de Oliveira intitulado JUVENTUDE, assiti ao filme no Festival de Cinema da Língua portuguesa "CINEPORT", realizado em João Pessoa - PB de 1 a 10 de Maio de 2009