sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A raposa e o Pequeno Príncipe

Certamente um dos mais belos diálogos da Literatura mundial.



Após um longo e sábio caminhar, o Pequeno Príncipe, dispôs-se a descansar...

“E foi então que apareceu a raposa:
– Bom dia – disse a raposa.
– Bom dia – respondeu educadamente o pequeno príncipe, que, olhando a sua volta, nada viu.
– Eu estou aqui, – disse a voz, debaixo da macieira...
– Quem és tu? – perguntou o principezinho. – Tu és bem bonita...
– Sou uma raposa – disse a raposa.
– Vem brincar comigo – propôs ele. – Estou tão triste...
– Eu não posso brincar contigo – disse a raposa. – Não me cativaram ainda.
– Ah! Desculpa – disse o principezinho. Mas, após refletir, acrescentou:
– Que quer dizer "cativar"?
– Tu não és daqui – disse a raposa.
– Que procuras?

– Procuro os homens – disse o pequeno príncipe.
– Que quer dizer cativar?
– Os homens – disse a raposa – têm fuzis e caçam.
É assustador! Criam galinhas também. É a única coisa que fazem de interessante. Tu procuras galinhas?

– Não – disse o príncipe. – Eu procuro amigos.
– Que quer dizer “cativar”?
– É algo quase sempre esquecido – disse a raposa.
Significa "criar laços"...
– Criar laços?
– Exatamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim.
Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas.
Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo...
– Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens também.

Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol.
Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros me fazem entrar debaixo da terra.
Os teus me chamarão para fora da toca, como música.

E depois, olha! Vês, lá longe, o campo de trigo?

Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! – Mas tu tens cabelos dourados.

E então serás maravilhoso quando me tiverdes cativado. O trigo, que é dourado, fará com que me lembre de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...

A raposa calou-se e observou muito tempo o príncipe:
– Por favor, cativa-me! disse ela.
- Eu até gostaria – disse o principezinho – mas eu não tenho
muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a
conhecer.
– A gente só conhece bem as coisas que cativou – disse a raposa.

– Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma.
Compram tudo já pronto nas lojas.
Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos.
Se tu queres um amigo, cativa-me!

– Que é preciso fazer? – perguntou o pequeno príncipe.

– É preciso ser paciente – respondeu a raposa

– Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva.
Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada.
A linguagem é uma fonte de mal-entendidos.
Mas cada dia, te sentarás um pouco mais perto...

No dia seguinte o príncipe voltou.
– Teria sido melhor se voltasses à mesma hora – disse a raposa.
– Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz! Quanto mais a hora for chegando, mais me sentirei feliz! Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade!

Assim o pequeno príncipe cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:

– Ah! Eu vou chorar.

– A culpa é tua – disse o principezinho. – Eu não queria te fazer
mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...

– Quis – disse a raposa.

– Então, não terás ganho nada!

– Terei, sim – disse a raposa – por causa da cor do trigo.

Depois ela acrescentou: – Vai rever as rosas. Assim, compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te presentearei com um segredo.

O pequeno príncipe foi rever as rosas:[...]. “ E ao voltar dirigiu-se à raposa:

– Adeus... – disse ele.

– Adeus – disse a raposa.

– Eis o meu segredo:


É muito simples: só se vê bem com o coração.

O essencial é invisível aos olhos.”


“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”


Texto: SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. Por Favor, Cativa-me [Título atribuído]
In: —. O Pequeno Príncipe. Com aquarelas do autor. Trad. Dom
Marcos Barbosa. 48. ed. 15. impressão. Rio de Janeiro: Agir, 2004.
Cap. XXI, p. 66-74.

Uma filé Por Favor.

Noite do dia 19 de Janeiro 23:07 meu primo zapeou pra RedeTV, no programa da Gimenes. O cenário era bem variado, era composto por figuras pensantes como; Agnaldo Timóteo, três bonitinhas loirinhas de cabelo escovado e semi-anonimas (ou semi-famosas depende do ponto de vista), a Gimenes e como alvo do programa a mulher Filé, em pauta o ultimo hit desta super celebridade de caixinha do atual cenário musical brasileiro que é cria do ilmo MC Catra (se você não sabe quem é, eu também não).

A letra da canção mostra a notória influência de nomes como Chico Buarque e Tom Jobim, é dessas músicas que daqui a 20 anos ainda estaremos cantando em rodinhas de amigos.

Sem mais delongas eis a canção, ela dispensa partitura pois com uma batida simples de funk você obtém a melodia necessária e a letra tão simples que não sairá da sua mente, faça voz de cachorra bem sacana e manda ver.


"Minha música é ruim / E eu não sei cantar / Mas muito beijo na boca eu vou te dar." (perceba como as palavras CANTAR e DAR fazem uma rima riquíssima)

Antes que você imagine que eu sou mais um a atirar uma pedra na pobrezinha da Filé, e antes que eu de fato faça isto pois é do meu feitio, para quem nunca a viu vou tentar descervê-la da melhor forma que eu consegui, e despido do sarcasmo com que descrevi a música:

A primeira vista – Morena, gostosinha, estilo cachorrona, a mulher com quem muitos caras adorariam passar uma noite caliente, mas com a condição que a Filé não falasse nada. Vendo por um ângulo mais analítico e tentando deixar de lado todo e qualquer tipo de idéia pré concebida, vi na mulher Filé uma menina, é uma menina sonhadora de baixo daquela bunda linda, daquelas coxas descomunais, vejo uma menina que não foi bem orientada pelos pais, que provavelmente não foi incentivada a estudar, que prefere não enxergar que o seu sucesso deve-se única e exclusivamente a dois fatores básicos, 1. Tem uma bunda e um rebolado de tirar o fôlego e 2. E que é apadrinhada de algum traficante mecenas das sub-culturas brasileiras.

Bom e voltando ao programa – A mulher filé tentava a todo custo justificar a letra do seu HIT que segundo ela nem é sua música de trabalho, expuseram a menina lançando o desigual desafio; a nossa filezinha cantaria "Emoções" do Roberto Carlos e Agnaldo Timóteo cantaria o hit “minha música é ruim” da referida artista.

Enquanto a Filé cantava os versos eternizados por Roberto Carlos a platéia (recheada de pessoas tão sem esclarecimento quanto a filé) gritava e aplaudia sem reservas o assassínio de Emoções cometido pela moça do minúsculo vestido preto.

A demonstração da falta de talento musical da moça foi premiada por uma matéria preparada pelo programa onde um especialista em música e um monte de pessoas na rua foram interrogados acerca da nota que elas dariam para aspectos do perfil artístico da guria, eram as categorias:

Potencia Vocal, Criatividade, Carisma e outro que não me lembro, devia ter anotado nunca devo confiar na minha memória de curto prazo, bom o fato é que a moça teve uma média que beirava o 2, muitas pessoas deram nota zero, teve até um 10 só que negativo, ou seja, a moça foi reprovada em todos os quesitos.

Não quero com este texto me posicionar contra a pessoa da Yane de Simone(é esse o nome dela) sou contra sim a este culto à celebridade que a alum tempo vem tomando conta do cenário nacional, no lugar do talento e da competência foi colocada a imagem, já que para o povão ela vale mais que mil palavras, é fácil para os meios de massa criarem FENÔMENOS desfenomenais, IMPERADORES sem império, as MULHERES FRUTAS e agora a FILÉ que está sendo vendida como o seu nome sugere, um pedaço de carne. É uma pena tanto para a Yane quanto para todos os brasileiros acostumados a terceirizar o intelecto, já que muitos decidem deixar a mídia controlar a prórpia mente e dizer o que é bom ou ruim.

Daqui a 10 ou 15 anos não estaremos cantando mais as musicas da Yane mas com certeza o MC CATRA (famosíssimo quem?) vai conseguir outra celebridade gostosinha e ou burrinha pragente. Quanto a Filé? Terá um fim parecido com o do pessoal do bonde do Tigrão, provavelemente lutando contra a lei da gravidade ou da gravidez e então vai entender o quão pueril é a vida de Celebridade.


Hasta Luego

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Alguma coisa acontece no meu coração.

Ainda que tardia tive a ideia de escrever sobre minha viagem à Sampa, tinha vontade de começar a escrever no dia 13 quando saímos do aeroporto do Recife, mas fui adiando e adiando, hoje dia 17 de Janeiro de 2009 enfim comecei.

Trajeto – Recife – Rio de Janeiro – São Paulo (sem muitos comentários sobre a viagem, apenas uma dica, nunca deixe pra comer algo no aeroporto Tom Jobim-RJ é um assalto à mão armada)

Quando o avião se aproximava de São Paulo me veio uma pergunta a mente “puts de onde veio tanto concreto” para meus olhos acostumados com uma João Pessoa, pacata e acanhada, aquilo tudo para mim era extasiante, tanto que minhas atenções nem estavam mais voltadas para os preparativos do pouso, eu queria ver um pouco mais desta imponente nuvem de concreto e gente por um ângulo mais altaneiro, forçar os prédios a olharem para mim, já que nos dias que se seguem eu quase teria um torcicolo de tanto contemplar o topo dos arranha céus

No “fantástico mundo de Pablo” parecia que todo o esforço brasileiro de ser Brasil em pedra e cimento estava ali, naquelas ruas cheias de altos edifícios e entrecortada pela alma de brasileiros de todos os calibres muitos deles nordestinos como eu.

Enfim meu primo veio nos buscar no aeroporto de Congonhas e nos conduziu à sua casa em Baruerí, nosso porto-seguro em terras paulistas, no outro dia costuramos a São Paulo que os turistas não se interessam em conhecer, tinha se iniciado minha epopeia paulistana, nos dias que se seguiram percebi o quanto meu senso de direção deveria ser aguçado para me acostumar a esta cidade.

E quanto ao título... sei lá mas Sampa ficou na minha cabeça, pode ter sido por que “quando lhe encarei frente a frente não vi o meu rosto”.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Tradição

Caldo e MocotóDo Lat. traditione, entrega s. f., acto de transmitir ou entregar;
transmissão oral de lendas, factos, etc. , de pais para filhos;
transmissão de valores espirituais de geração em geração;
conhecimento ou prática que provém da transmissão oral ou de hábitos inveterados;
hábito;
uso;
notícia de um facto transmitido oralmente ou por testemunho que livros, sucessivamente publicados, confirmam;
recordação;
memória.


Tenho um amigo que tradicionalmente assiste aos jogos da Seleção no mesmo canto do sofá. Crente que isto vai trazer o resultado positivo pra Amarelinha.

Antigamente faziamos encontros da turma da época de Escola Tecnica "tradicionalmente" em uma pizzaria de João Pessoa, até que cansamos de pizza, e alguns uns dos outros.

Tradicionalmente passamos o Reveilón na beira da Praia quer seja em intermares, quer seja em Tambaú.

O lance bacana das tradições é que elas não precisam ser explicadas, por serem tão carregadas de sentimento elas tornam-se verdadeiros axiomas sentimentais, são propagadas por que julga-se encontrar bem estar na ação.

Almoçar em Família no dia de Natal
Ir a João Pessoa e Comer uma Tapioca na feirinha de Tambáu;
Contemplar o Pôr-do-sol ao som do Bolero de Ravel na praia Fluvial do Jacaré em Cabedelo,
Ver o morro do Careca na Praia de Ponta Negra em Natal;
Tomar caldo de Mocotó com Cuscuz no mercado central do Crato no Ceará às 5:30 da manhã.

Algumas tradições mais carregados de glamour que outras, para mim cada uma traz um sentimento peculiar. Uma não pode substituir a outra, uma não pode suplantar a carga de importância da outra.

Para mim algumas tradições se mostram nocivas e até burras, mas não é sobre estas que quero falar agora. Agora quero falar das que me fazem bem, que me fazem feliz. Das que me enchem os olhos de alegria ao lembrar, por exemplo, de cada colherada em um prato de caldo de mocotó com cuscuz, de como a força e o aroma da iguaria só não são mais contundentes que a importância da companhia e o que ela representou. E como toda tradição esta também precisa de rituais e requisitos, eu posso tomar mil caldos mas, se não for na feira do Crato às 5:30 da manhã e com a mesma companhia terá sido apenas mais um prato de caldo.

Recordei-me ao escrever este último parágrafo do bate-papo entre a Raposa e o Pequeno Principe no livro de Antoine de Saint-Exupery entitulado também "O Pequeno Príncipe"(em outro post eu colocarei este diálogo na integra, por ser considerado por mim um dos mais belos textos da literatura mundial) um dialogo que fala de criar laços, cativar, e o que seriam as tradições senão isso, criar vinculos para serem lembradas.

Bom foi apenas uma divagação para dizer que nunca mais tomarei outro caldo de mocotó sem lembrar daquela manhã em que as boas tradições pareceram declarar que estavam vivas e fortes tanto ou mais que o aroma de coentro, e que uma boa companhia é o segredo da manutenção do costume.

"É impossível ser feliz sozinho"
Tom Jobin